22 de março de 2007

O Espírito Santo virá sobre ti

"O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra (Lc 1, 35)." Num autêntico paralelismo, duas imagens, provenientes de diferentes tramas da tradição, descrevem o mistério e o indizível, estando superpostas, parte por parte.

A primeira imagem faz alusão ao relato da Criação (Gn 1, 2) e caracteriza o acontecimento como uma nova criação: o Deus, cujo espírito planava sobre os abismos, criou o ser do vazio, do nada; Ele, o Espírito Criador, é o fundamento, a base de tudo o que existe; este Deus inaugura, pois, uma nova criação a partir da antiga criação e nela. Assim, firme e absolutamente caracterizada se instala a ruptura radical com o passado. Este novo momento significa a vinda de Cristo.

A segunda imagem - o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra - pertence à Teologia do culto de Israel que remete à nuvem espessa, que com a sua sombra cobre o Templo de Deus, indicando, assim, a presença de Deus. Maria aparece como sendo a tenda santa, sobre a qual a presença oculta de Deus torna-se eficaz.

Cardeal Joseph Ratzinger (papa Bento XVI)
La Fille de Sion (A filha de Sião)

21 de março de 2007

O Anjo do Senhor anunciou a Maria

Eis o que cita o Evangelista: O anjo, entrando onde estava Maria - sem dúvida, em sua casa -, disse-lhe: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo (Lc 1, 28)!

Entrando na casa da Virgem, mas onde, em que lugar? Acho que foi no recôndito de seu modesto quartinho onde, sempre, com a porta fechada, Maria se retirava para rezar ao Pai. Os anjos costumam estar ao lado daqueles que estão em oração e apreciam estar na companhia daqueles que rezam, erguendo as mãos puras para o Céu, sendo uma alegria muito grande, para eles, oferecer a Deus, em suave odor, o sacrifício do seu santo fervor.

Quanto à Maria, qual não seria o preço, o valor de suas orações aos olhos do Altíssimo? O anjo sabia muito bem, saudando-a, com todo o respeito, logo ao entrar em seu quarto.

O anjo não enfrentou nenhuma dificuldade em adentrar a porta fechada onde a Virgem Maria se mantinha retirada, em oração: a sutileza e argúcia de sua natureza permitem-lhe entrar seja aonde for, sem que nenhuma fechadura de ferro seja obstáculo à sua Missão. Para os espíritos evangélicos, as muralhas não representam impedimento: qualquer objeto visível se apaga diante delas e não existe corpo tão resistente nem tão espesso que não lhes seja permeável.

Não podemos imaginar, pois, que o anjo tenha encontrado a porta aberta, porque a Virgem, certamente, evitava e se afastava da companhia dos homens e desviava-se de suas conversas para que nada perturbasse o silêncio de suas orações nem colocasse em perigo a sua castidade. Sendo muito prudente, ela tinha sido, naquela hora, bastante prudente, igualmente - sendo a prudência, uma característica sua - e fechara-se sob quatro portas; fechara-se aos homens, mas não aos anjos.

Assim, o anjo pôde entrar em sua casa, mas nenhum homem tinha livre acesso a ela.

São Bernardo de Claraval
Trecho da terceira Homilia Super Missus

16 de março de 2007

Os dois mandamentos do amor

Pergunta: Para começar, pedimos que nos digam se os mandamentos de Deus se seguem por uma certa ordem. Há um primeiro, um segundo, um terceiro, e por aí fora?...

Resposta: O próprio Senhor determinou a ordem por que devem ser guardados os seus mandamentos. O primeiro e o maior é aquele que diz respeito à caridade para com Deus, e o segundo, que se lhe assemelha, ou, mais precisamente, o complementa e é sua consequência, diz respeito ao amor ao próximo...

Pergunta: Falai primeiro do amor de Deus. Está claro que é preciso amar a Deus, mas como devemos amá-lO?...

Resposta: O amor a Deus não se ensina. Ninguém nos ensinou a aproveitar a luz ou a defender a vida acima de tudo; também ninguém nos ensinou a amar os que nos puseram no mundo ou nos educaram. Do mesmo modo, ou ainda com mais forte razão, não é um ensinamento exterior que nos ensina a amar a Deus. Na própria natureza do ser vivo – quero dizer do homem – é deposta uma espécie de germe que contém em si o princípio dessa aptidão para amar. É à escola dos mandamentos de Deus que compete recolher esse germe, cultivá-lo diligentemente, alimentá-lo com zelo, e dilatá-lo mediante a graça divina.
Aprovo o vosso zelo, é indispensável ao propósito... É preciso saber que esta virtude da caridade é uma, mas que potencialmente ela abarca todos os mandamentos: «Pois aquele que me ama, diz o Senhor, cumpre os meus mandamentos» (Jo 14,23), e ainda : «nestes dois mandamentos está contida toda a lei e os profetas» (Mt 22,40).

S. Basílio (c. 330-379), monge e bispo de Cesareia, na Capadócia, doutor da Igreja
Igreja Grandes regras monásticas, Q 1-2

8 de março de 2007

A Igreja não é lugar para anarquia

VATICANO, 07 Mar. 07 (ACI)

Milhares de fiéis se reuniram na Sala Paulo VI para participar da Audiência Geral com o Papa Bento XVI, quem em sua catequese sobre os padres apostólicos pedindo que as autoridades sejam dóceis ao plano de Deus.

Aprofundando sobre a figura de São Clemente, Papa, o Santo Padre disse que "a autoridade e prestígio deste Bispo de Roma eram tais que lhe foram atribuídos diversos textos" e entre estes uma carta que "constitui um primeiro exercício do Primaz romano depois da morte de são Pedro".

Nesta, São Clemente recorda que "o Senhor nos previne e doa o perdão, doa-nos seu amor, a graça de sermos cristãos, seus irmãos e irmãs".

"É um anúncio que enche de gozo nossa vida e dá segurança a nosso atuar: o Senhor nos previne sempre com sua bondade e a bondade do Senhor é sempre maior que todos nossos pecados", continuou o Pontífice.

Deste modo São Clemente reflete sobre seu ideal de Igreja "reunidos pelo único Espírito de graça infundida sobre nós, que se manifesta nos diversos membros do Corpo de Cristo, no qual, todos, unidos sem separação alguma, são membros uns dos outros".

Também existe na carta uma nítida distinção entre o laico e a hierarquia, que certamente "não significa para nada uma contraposição, mas somente uma conexão orgânica de um corpo, de um organismo, com as diversas funções".

"A Igreja -prosseguiu- não é lugar de confusão nem de anarquia: cada um neste organismo, com uma estrutura articulada, exercita seu ministério segundo a vocação recebida".

Para o final de sua catequese o Pontífice destacou a referência de São Clemente às autoridades, quem rezando por elas "reconhece a legitimidade das instituições políticas na ordem estabelecida por Deus; ao tempo que manifesta a preocupação que as autoridades sejam dóceis a Deus e exercitem o poder que Deus lhes deu na paz e na mansidão com piedade".

6 de março de 2007

A alma se abrasa de um amor inefável

[Disse Deus a Santa Catarina:] Pedes-me para Me conheceres e Me amares, a Mim, a Verdade suprema. Eis a via para quem quer chegar a conhecer-Me perfeitamente e a experimentar-Me, a Mim, a Verdade eterna: nunca abandones o conhecimento de ti mesma e, abaixada até ao vale da humildade, em ti mesma Me conhecerás. E desse conhecimento retirarás tudo quanto te faz falta, tudo aquilo de que precisas. Nenhuma virtude tem vida em si mesma, se a não tirar da caridade; ora, a humildade é a ama e a governanta da caridade. No conhecimento de ti mesma te tornarás humilde, pois por ele verás que nada és por ti mesma e que o teu ser vem de Mim, pois Eu amei-vos antes de que vós existísseis. Foi por causa deste amor inefável que tive por vós que, querendo voltar a criar-vos pela graça, vos lavei e vos recriei no sangue derramado por Meu Filho único com tão grande fogo de amor.

Só este sangue, e apenas ele, dá a conhecer a verdade àquele que, por via desse conhecimento de si mesmo, dissipou a névoa do amor próprio. É então que, nesse conhecimento de Mim Mesmo, a alma se abrasa de um amor inefável, e é devido a este amor que sofre uma dor contínua. Não é uma dor que a aflija ou a seque (longe disso dado que, pelo contrário, a fecunda); mas, por ter conhecido a Minha verdade, os seus próprios pecados, a ingratidão e a cegueira do próximo causam-lhe uma dor intolerável. Aflige-se porque Me ama pois, se não Me amasse, não se afligiria.

Santa Catarina de Sena (1347-1380), terceira dominicana, Doutora da Igreja, co-padroeira da Europa; Diálogos, cap. 4

27 de fevereiro de 2007

Venha a nós o vosso reino

Se olharmos com atenção, espantar-nos-á ver até que ponto o homem procura o seu bem pessoal em todas as coisas, à custa dos outros homens, nas palavras, nas obras, nos dons, nos serviços. Tem sempre em vista o seu bem pessoal: alegria, utilidade, glória, serviços a receber, sempre alguma vantagem para si mesmo. Eis o que procuramos e perseguimos nas criaturas, e mesmo no serviço a Deus. O homem vê apenas as coisas terrestres, à maneira da mulher curvada de que nos fala o Evangelho, que permanecia inclinada para a terra, incapaz de olhar as coisas do alto (Lc 13, 11). Nosso Senhor declara que “não podeis servir a dois senhores, a Deus e às riquezas”, e prossegue: “procurai primeiro”, quer dizer antes de tudo e acima de tudo, “o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6, 24. 33).

Analisai, pois, as profundezas que em vós se encontram, não procurando senão o Reino de Deus e a sua justiça – ou seja, procurai apenas a Deus, que é o verdadeiro Reino, o reino que desejamos e que todos os dias pedimos no Pai Nosso. O Pai Nosso é uma oração elevada e poderosa; não sabeis o que pedis (Mc 10, 38); Deus é o seu próprio reino, o reino de todas as criaturas racionais, o termo do seu movimento e das suas inspirações. O Reino que pedimos é Deus, o próprio Deus, em toda a sua riqueza. […]

Quando o homem persevera nestas disposições, não procurando, não querendo, não desejando senão a Deus, torna-se ele próprio o Reino de Deus, e Deus reina nele. O trono do seu coração passa então a ser magnificamente ocupado pelo Rei eterno, que nele manda e o governa; a sede deste Reino está no mais íntimo do fundo da sua alma.

Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo - Sermão 62

13 de fevereiro de 2007

Jesus revelou os mistérios

Convém refletir sobre o fato que, a partir do momento em que Jesus foi encontrado entre os doutores da Lei - e, sobretudo, mais tarde, quando adulto - Ele tenha revelado, progressivamente, a Maria e a José, todos os mistérios de Deus que Ele tinha vindo realizar.

Cardeal Charles Journet
Entretiens sur Marie - (Discorrendo sobre Maria) Edições Parole et Silence 2001

22 de janeiro de 2007

O pecado contra o Espírito Santo

Porque é que a «blasfémia» contra o Espírito Santo é imperdoável? Em que sentido se deve entender esta «blasfémia»? S. Tomás de Aquino responde que se trata da um pecado «imperdoável por sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados».

Segundo uma tal exegese, a «blasfémia» não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem carácter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efectuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo: o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».

Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas «obras mortas», no pecado. E a «blasfémia contra o Espírito Santo» consiste exactamente na recusa radical de aceitar esta remissão, de que Ele é o dispensador íntimo e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado nem nesta vida nem na futura, é porque esta «não-remissão» está ligada, como à sua causa, à «não-penitência», isto é, à recusa radical a converter-se. Isto equivale a uma recusa radical de ir até às fontes da Redenção; estas, porém, permanecem «sempre» abertas na economia da salvação, na qual se realiza a missão do Espírito Santo. Este tem o poder infinito de haurir destas fontes: «receberá do que é meu», disse Jesus.

Deste modo, Ele completa nas almas humanas a obra da Redenção, operada por Cristo, distribuindo os seus frutos. Ora a blasfêmia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso «direito» de perseverar no mal - em qualquer pecado - e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfémia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou e abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências e da remissão dos pecados.

João Paulo II
Encíclica « Dominum et vivificantem », § 46 (trad. © Libreria Editrice Vaticana)

10 de janeiro de 2007

Revolução messiânica

"A idéia central da revolução messiânica pode-se resumir em quatro pontos: (I) a humanidade pecadora não será salva por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por ela mesma; (II) o método para alcançar a redenção consiste em matar ou pelo menos subjugar todos os maus, isto é, os ricos; (III) os pobres são inocentes e puros, mas não entendem seu lugar no projeto da salvação e por isso têm de colocar-se sob as ordens de uma elite dirigente, os “santos”; (IV) o morticínio redentor gerará não somente a melhor distribuição das riquezas, mas a eliminação do mal e do pecado, o advento de uma nova humanidade."

Olavo de Carvalho
http://www.olavodecarvalho.org/semana/070108dc.htm

22 de dezembro de 2006

Maria, Mãe da nova humanidade

"O Cristo é um, não pela conversão, pela transformação da Divindade em carne, mas pela assunção da humanidade em Deus."

Santo Atanásio

"No seio da Virgem Maria, uma nova humanidade floresceu. No seio de Maria, a Trindade Eterna suscitou esta nova criação de uma humanidade tão transparente a Deus que o verdadeiro Rosto de Deus pôde, enfim, manifestar-se nela."

Maurice Zundel

21 de dezembro de 2006

O que faziam no presépio a Santíssima Virgem e São José?

Qual era a atitude da Santíssima Virgem e de São José, no presépio? Eles olhavam, contemplavam, admiravam o Menino Jesus. Esta era toda a sua ocupação. Estavam eles, em oração, diante do Santo Sacramento exposto no altar do presépio. Bendiziam e agradeciam o bom Deus que, por amor a todos nós, acabava de nos oferecer seu próprio Filho. Jamais alguém poderá compreender, nem dizer tudo o que se passava, então, no coração de Maria.

São Cura D´Ars

Uma pequena mensagem de Natal

"E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria". (Lc 2,7)

"hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor".(Lc 2,11)

É noite de alegria. Porque, no meio da escuridão, uma Luz resplandeceu. No meio das Trevas, uma Luz brilhou, e todos A vieram contemplar.

O Menino Deus nasceu à noite, porque é na noite que precisamos da luz. Nasceu à noite, para ensinar que era noite na humanidade; uma noite longa que se arrastava por séculos. Era noite desde o pecado de Adão. Todo o mundo jazia no maligno.

Mas uma Luz resplandeceu em meio às Trevas. Na noite de Belém, nos nasceu um Salvador. E aquela Luz brilhou tão forte nas trevas do pecado, que todos A perceberam. Os Reis Magos A perceberam, e vieram adorá-La. Herodes A percebeu, e tentou apagá-La. Porque, em meio às Trevas, é impossível não notar uma Luz resplandecente. Os filhos da Luz buscam-Na e sentem-se à vontade junto a Ela; os filhos das Trevas d'Ela fogem horrorizados, pois têm vergonha das suas obras ímpias, que realizam na escuridão. A Luz atrai os bons e afugenta os maus. Por isso, o Deus Menino nascido em Belém estava destinado a ser um sinal de contradição, como profetizou o velho Simeão.

"Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições" (Lc 2,34)

O Cristo Deus, Unigênito do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro do Deus Verdadeiro, veio ao mundo destinado a ser uma causa de queda para muitos. Causa de queda para os que preferissem as Trevas à Luz. Causa de queda para os que, como Herodes, quisessem apagar essa Luz para continuar a viver nas Trevas.

E, neste Natal, somos como os Reis Magos, ou somos como Herodes? Procuramos ao Deus Menino para oferecer-Lhe o melhor que temos, ou fugimos d'Ele e O queremos matar, justamente para que não nos desfaçamos de nossos vícios que nos são tão caros? Desejamos que o Cristo nasça? Ou queremos que Ele não venha, para que possamos viver ainda um pouco mais nas Trevas, ainda um pouco mais no pecado, sem que nossas torpezas sejam postas a descoberto?

Se eu tivesse que escolher, diria que estamos muito mais para Herodes do que para os Reis Magos. Mas eu proponho uma terceira opção: neste Natal, nós somos como as construções, a cujas portas bateram Santa Maria e São José. Construções suntuosas como palácios, ricas demais para perceberem que lhes falta a maior das riquezas. Aconchegantes como hospedarias, animadas demais para perceberem Alguém que precisa de um pouco de atenção. Familiares, como casas, mas fechadas demais sobre si próprias para abrirem a porta a uma Mulher grávida e Seu marido. Ou indignas demais, como estrebarias, inadequadas para receber um Rei.

Mas não importa que construção nós sejamos, não importa se somos palácios ou hospedarias, casas ou estrebarias. Importa que estejamos com Maria. Porque, em Belém, de todas aquelas construções, somente uma teve a honra de abrigar o Filho de Deus feito Homem: aquela na qual se encontrava a Virgem Santa. Que assim seja também conosco. Neste Natal, como naquele primeiro, o Menino Deus só nasce naquelas almas que não negam hospedagem a Maria
Santíssima. Procuremos, pois, abrir as portas de nossa alma a essa Boa Senhora, e Ela, em troca, abrirá para nós as portas do Céu e nos trará Jesus Menino, Luz que resplandece nas trevas, Senhor Nosso e Nosso Salvador.

Um feliz e santo Natal a todos.
Jorge Ferraz

13 de dezembro de 2006

O Dogma da Imaculada Conceição

O Deus inefável,
cujas vias são misericórdia e verdade,
cuja vontade é onipotência,
cuja sabedoria atinge de um extremo ao outro, com força soberana, e dispõe tudo com maravilhosa doçura,
havia previsto desde toda a eternidade, a deplorável ruína para a qual a transgressão de Adão deveria arrastar toda a humanidade;
e, nos segredos profundos de um desígnio, velado a todos os séculos, Ele havia decidido realizar - mistério mais profundo ainda, pela encarnação do Verbo -, a primeira obra de Sua bondade, a fim de que o homem que fora induzido ao pecado, pela malícia e astúcia do demônio,
não perecesse - o que era contrário ao desígnio misericordioso de seu Criador -,
e que a queda de nossa natureza, no primeiro Adão, fosse reparada com vantagem para o segundo.

Ele destinou, pois, para o seu Filho único - desde o início dos tempos, antes de todos os séculos -, a Mãe da qual, tendo se encarnado, ele nasceria, na bendita plenitude dos tempos;
Ele a escolheu, fixando o seu lugar, segundo a ordem de seus desígnios;
Ele a amou acima de todas as criaturas, com um amor tal, de predileção,
que nela colocou, de maneira singular, todas as suas maiores complacências.

Eis porque, indo buscar nos tesouros de sua divindade, Ele a cumulou, bem mais que a qualquer espírito angelical, bem mais que a qualquer santo, com a abundância de todas as graças celestiais e a enriqueceu com tal e maravilhosa exuberância, fazendo com que ela se mantivesse, para sempre, imaculada, inteiramente isenta da escravidão do pecado, belíssima, perfeitíssima e em tal plenitude de inocência e santidade, que não podemos conceber, abaixo de Deus, alguém com maior perfeição. E somente Deus, e ninguém mais, é capaz de avaliar a sua grandeza.

(...)

Como conseqüência, após oferecermos incessantemente, na humildade e no jejum, Nossas próprias orações e as orações públicas da Igreja a Deus Pai, por meio de seu Filho, para que se digne, pela virtude do Espírito Santo, dirigir e confirmar o Nosso espírito; após termos implorado o socorro de toda a corte celestial e invocado com lamentos o Espírito Consolador e, assim, por sua divina inspiração, em honra da Santa e indivisível Trindade, para a glória e insígnia da Virgem Mãe de Deus, para a exaltação da fé católica e progresso da religião cristã; pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, os bem-aventurados Pedro e Paulo e pela Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos que a Doutrina que sustenta que a Santíssima Virgem Maria, no primeiro instante da Sua concepção, foi preservada imune de toda a mancha de culpa original - por singular graça e privilégio de Deus Onipotente, em função dos méritos de Cristo Jesus, Salvador do Gênero humano -, foi revelada por Deus, e, portanto, deve ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis.

Pio IX
Bula Ineffabilis Deus - 8 de dezembro de 1854

12 de dezembro de 2006

Para que nossa fé seja completa

Se nós admitimos que o Filho tenha sido criado pelo Pai, admitimos, igualmente, seu nascimento por meio de Maria, para que nossa fé seja completa.

Qual seria o motivo da Encarnação de Jesus? Este, indubitavelmente: a carne que havia pecado deveria ser resgatada pela mesma carne.

Santo Ambrósio (340 - 397)

6 de dezembro de 2006

São Nicolau

6 de Dezembro

O Santo deste dia é São Nicolau, muito amado pelos cristãos e alvo de
inúmeras lendas. Nicolau nasceu na Ásia Menor, pelo ano de 275, filho de
pais ricos, mas com uma profunda vida de oração. Tornou-se sacerdote da
diocese de Mira, onde com amor evangelizou os pagãos, mesmo no clima de
perseguição em que viviam os cristãos.

São Nicolau é conhecido principalmente para com os pobres, já que ao receber
por herança uma grande quantia de dinheiro, livremente partilhou com os
necessitados. Certa vez, Nicolau sabendo que três pobres moças não tinham os
dotes para o casamento e por isso o próprio pai, na loucura, aconselhou-lhes
a prostituição, atirou pela janela da casa das moças três bolsas com o
dinheiro suficiente para os dotes das jovens. Daí que nos países do Norte da
Europa, através da fantasia, viram em Nicolau o velho de barbas brancas que
levava presentes às crianças no mês de dezembro.

Sagrado bispo de Mira, Nicolau conquistou todos com sua caridade, zelo,
espírito de oração, e carisma de milagres. Historiadores relatam que ao ser
preso, por causa da perseguição dos cristãos, Nicolau foi torturado e
condenado à morte, mas felizmente salvou-se em 313, pois foi publicado o
edital de Milão que concedia a liberdade religiosa.

São Nicolau participou no Concílio de Niceia, onde Jesus foi declarado
consubstancial ao Pai. Partiu para o céu em 342 ao morrer em Mira com fama
de santidade e de instrumento de Deus para que muitos milagres chegassem ao
povo.

Fonte: Evangelho Quotidiano

5 de dezembro de 2006

Muitos virão sentar-se à mesa do banquete

Concílio Vaticano II -- Constituição sobre a Igreja no mundo actual "Gaudium et Spes"

"Do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete... no Reino do Céu"

«Imagem de Deus invisível» (Col. 1,15), Cristo é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Já que, n'Ele, a natureza humana foi assumida, e não destruída, por isso mesmo também em nós foi ela elevada a sublime dignidade. Porque, pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado (He 4,15)...

O cristão, tornado conforme à imagem do Filho que é o primogénito entre a multidão dos irmãos (Ro 8,29)), recebe «as primícias do Espírito» (Rom. 8,23), que o tornam capaz de cumprir a lei nova do amor. Por meio deste Espírito, «penhor da herança (Ef. 1,14), o homem todo é renovado interiormente, até à «redenção do corpo» (Rom. 8,23)... É verdade que para o cristão é uma necessidade e um dever lutar contra o mal através de muitas tribulações, e sofrer a morte; mas, associado ao mistério pascal, e configurado à morte de Cristo, vai ao encontro da ressurreição, fortalecido pela esperança.

E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. Com efeito, já que por todos morreu Cristo (Ro 8,32) e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido.

24 de novembro de 2006

Quem se humilha será exaltado

"Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado" (Mt 23,12)... Imitemos o Senhor que desceu do céu até à última humilhação e que, em recompensa, foi exaltado, desde o ínfimo lugar até à altura que lhe convinha. Descobramos tudo o que o Senhor nos ensina para nos conduzir à humildade.

Ainda menino, ei-lo já numa gruta, deitado não num berço mas numa mangedoura. Na casa de um operário e de uma mãe sem recursos, submeteu-se à mãe e ao seu esposo. Deixando-se ensinar, escutando aqueles de quem não tinha precisão, ele interrogava; contudo, de tal forma que, pelas suas interrogações, as pessoas espantavam-se com a sua sabedoria. Submete-se a João e o Mestre recebe o baptismo das mãos do servo. Nunca resistiu aos que se erguiam contra ele e não exibiu o seu poder invencível para se libertar das mãos que o prendiam, mas deixou-se levar, como um impotente, e na medida em que achou bem entregou-se nas mãos de um poder efémero. Compareceu diante do sumo-sacerdote na qualidade de acusado; conduzido diante do governador, submeteu-se ao seu julgamento e, quando podia responder aos caluniadores, suportou em silêncio as suas calúnias. Coberto de escarros por escravos e vis criados, foi enfim entregue à morte, a uma morte infamante aos olhos dos homens. Eis como se desenrolou a sua vida de homem, desde o nascimento até ao fim. Mas, depois de uma tal humilhação, fez brilhar a sua glória... Imitemo-lo para chegarmos, também nós, à glória eterna.


S. Basílio (cerca de 330 - 379), monge e bispo de Cesareia na Capadócia, doutor da Igreja.

Homilia sobre a humildade, 5-6

Fonte: Evangelho Quotidiano

16 de novembro de 2006

O Reino de Deus está no meio de nós e dentro de nós

Tal como disse o nosso Senhor e Salvador: "O Reino de Deus vem sem que se possa notar. Não se dirá: 'Ei-lo, está aqui' ou 'Está ali'. Porque o Reino de Deus está dentro de vós". Com efeito, "está bem perto de nós, essa Palavra, está na nossa boca e no nosso coração" (Dt 30,14). Sendo assim, é evidente que aquele que reza para que venha o Reino de Deus tem razão em pedir que esse reino de Deus germine, dê fruto e se realize dentro de si próprio. Em todos os santos em quem Deus reina e que obedecem às suas leis espirituais, ele habita como que numa cidade bem organizada. O Pai está presente nele e Cristo reina com o Pai nessa alma perfeita, tal como Ele mesmo disse: "Viremos a ele e faremos nele a nossa morada" (Jo 14,23).

Uma vez que estamos sempre a progredir, o Reino de Deus que está em nós atingirá a sua perfeição quando a palavra do apóstolo Paulo se cumprir: Cristo, "depois de ter submetido" todos os seus inimigos, "deporá o seu poder real nas mãos de Deus Pai, para que Deus seja tudo em todos" (1Co 15,28). É por isso que, rezando sem desanimar, com disposições divinizadas pelo Vebo, nós dizemos: "Pai nosso que estás nos céus, que o teu nome seja santificado, que o teu Reino venha" (Mt 6,9).


Orígenes (cerca de 185 - 253), presbítero e teólogo -- Tratado sobre a oração.

Fonte: Evangelho Quotidiano

Maria é o novo mundo preparado para receber o novo Adão

Antes de formar o primeiro homem, Deus tinha-lhe preparado o magnífico palácio da criação. Colocado no Paraíso, o homem se deixou expulsar por causa da sua desobediência, e tornou-se, com todos os seus descendentes, presa da corrupção. Mas, Aquele que é rico em misericórdia, teve piedade da obra de Suas próprias Mãos, e decidiu criar um novo céu, uma nova terra, um novo mar para servir de morada ao Incompreensível, desejoso de reformar o gênero humano.

O que é este mundo novo, esta nova criação? A bem-aventurada Virgem Maria é o céu que mostra o sol da justiça, a terra que produz o rio da vida, o mar que traz a pérola espiritual... Como este mundo é magnífico! Como esta geração é admirável, com a sua bela vegetação de virtudes, e suas flores odoríficas da virgindade!... O que há de mais puro, de mais irrepreensível que a Virgem?

Deus, luz soberana e imaculada, nela encontrou tantos encantos que se uniu, substancialmente, a ela, por meio da descida do Espírito Santo. Maria é a terra sobre a qual o espinho do pecado não conseguiu sequer florescer. Ao contrário, ela produziu o rebento, por meio do qual, o pecado foi completamente extirpado.

(...)

Maria é uma terra que não foi amaldiçoada como a primeira, aquela, fecunda em espinhos e cardos. Sobre ela, ao contrário, desceu a bênção do Senhor e seu fruto é bendito, como cita o divino oráculo.

Agora, de posse da bem-aventurada imortalidade, A Santa Virgem ergue para Deus - para a salvação do mundo - as suas mãos, estas que embalaram Deus... Branca e pura pomba, erguida em seu vôo até o mais alto dos céus, ela não cessa de proteger nossa região inferior. Ela nos deixou fisicamente, mas está conosco em espírito; no Céu, a Virgem Santa coloca os demônios em fuga, tendo-se tornado nossa mediadora junto ao Pai. Outrora, a morte, introduzida no mundo por meio de Eva, estreitou-a sob o seu penoso império; hoje, lançando-se sobre a bem-aventurada filha de u´a mãe cheia de culpa, a morte foi expulsa; e sua derrota surgiu de onde, dantes, surgira o seu poder...

Ó Virgem, eu vos vejo adormecida e não morta: vós fostes assunta, da terra ao Céu e, não obstante, não cessais de proteger o gênero humano... Mãe, permanecestes virgem, porque "Ele era Deus, aquele a quem vós destes à luz". Assim atua, igualmente, vossa "morte viva", tão diferente da nossa: somente vós - o que é mais do que justo - tendes o corpo e a alma íntegros, puros, incorruptos.

De São Teodoro Studita -- Os Mais belos textos sobre a Virgem Maria -- Apresentados por Padre Pie Régamey (1946) .

31 de outubro de 2006

Eu farei de vós pescadores de homens

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo
Contra Celso, I, 62

A palavra dos apóstolos Simão e Judas ressoou por toda a terra

Se Jesus tivesse escolhido para ministros dos seus ensinamentos homens sábios segundo a opinião pública, capazes de compreender e de exprimir ideias caras à multidão, poderiam tê-lo acusado de pregar segundo o método dos filósofos de escola, e o carácter divino da sua doutrina não se teria mostrado com toda a sua evidência. A sua doutrina e a sua pregação teriam consistido “em sabedoria de palavras” (1 Cor 1, 17) […]; e a nossa fé, semelhante àquela com que se adere às doutrinas dos filósofos deste mundo, assentaria na sabedoria dos homens e não no poder de Deus (cf. 1 Cor 2, 5). Mas, quando vemos pescadores e publicanos sem instrução terem a ousadia de discutir com os judeus a fé em Jesus Cristo, de a pregar ao resto do mundo, e de conseguir lá chegar, não podemos deixar de procurar a origem deste poder de persuasão. Como não podemos deixar de confessar que Jesus cumpriu a sua palavra – “Vinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19) – nos seus apóstolos por meio de um poder divino.

Também Paulo manifesta este poder quando escreve: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito e do poder divino” (1 Cor 2, 4) […]. O mesmo haviam já dito os profetas, quando anunciavam antecipadamente a pregação do Evangelho: “O Senhor dá a palavra e os anunciadores da Boa Nova são uma multidão”, a fim de que “rápida corra a sua palavra” (Sl 67, 12; 147, 4). E, de facto, vemos que “a voz” dos apóstolos de Jesus ressoa “por toda a terra, até aos confins do universo a sua palavra” (Sl 18, 5; Rom 10, 18). Eis por que motivo aqueles que escutam a palavra de Deus poderosamente enunciada se enchem, eles mesmos, de poder; e manifestam-no pela sua conduta e pela sua luta em prol da verdade até à morte.

Fonte: Evangelho quotidiano