6 de fevereiro de 2008

Não somos autores de nós próprios

O que é converter-se, na realidade? Converter-se significa procurar Deus, estar com Deus, seguir docilmente os ensinamentos do seu Filho, de Jesus Cristo; converter-se não é um esforço para se auto-realizar a si mesmo, porque o ser humano não é o arquitecto do próprio destino eterno. Não fomos nós que nos fizemos. Por isso a auto-realização é uma contradição e é também demasiado pouco para nós. Temos um destino mais nobre. Poderíamos dizer que a conversão consiste precisamente em não se considerar "criadores" de si mesmos e assim descobrir a verdade, porque não somos autores de nós próprios. A conversão consiste em aceitar livremente e com amor de depender em tudo de Deus, o nosso verdadeiro Criador, de depender do amor. Esta não é uma dependência mas liberdade.

10 de janeiro de 2008

O Senhor Me ungiu

“Cumpriu-se hoje esta palavra da Escritura que acabais de ouvir: ‘O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu’ (Is 61, 1).” É como se Cristo tivesse dito: Porque o Senhor Me ungiu, Eu disse sim, disse-o verdadeiramente, e volto a dizê-lo: O Espírito do Senhor repousa sobre Mim. Onde foi, pois, em que momento foi que o Senhor Me ungiu? Ungiu-Me quando fui concebido, ou melhor, ungiu-Me a fim de que fosse concebido no seio de Minha Mãe. Porque não foi da semente de um homem que uma mulher Me concebeu, antes uma Virgem Me concebeu da unção do Espírito Santo. Foi então que o Senhor Me assinalou com a unção real; consagrou-Me rei ungindo-Me, ao mesmo tempo que Me consagrava sacerdote. E pela segunda vez, no Jordão, o Senhor consagrou-Me por esse mesmo Espírito. […]

E por que está o Espírito do Senhor sobre Mim? […] “Enviou-me a levar a boa nova aos pobres, a curar os corações despedaçados” (Is 61, 1). Não Me enviou aos orgulhosos nem aos “que têm saúde”, mas como “médico aos doentes” e aos corações despedaçados. Não Me enviou “aos justos” mas “aos pecadores” (Mc 2, 17). Fez de Mim um “homem de dores, experimentado nos sofrimentos” (Is 53, 3), um homem “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Enviou-Me “a anunciar a amnistia aos cativos e a liberdade aos prisioneiros” (Is 61, 1). […] A que prisioneiros, ou antes, de que prisão venho anunciar a libertação? A que cativos venho anunciar a liberdade? Desde que “por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte” (Rom 5, 12), todos os homens são prisioneiros do pecado, todos são cativos da morte. […] Eu fui enviado “a consolar […] os amargurados de Sião” (Is 61, 2-3), todos quantos se afligem por terem sido, devido aos seus pecados, privados e separados de sua mãe, a “Jerusalém lá do alto” (Ga 4, 26). […] Sim, consolá-los-ei dando-lhes “uma coroa em vez das cinzas” da penitência, o “óleo da alegria”, ou seja, a consolação do Espírito Santo, “em vez do luto” da orfandade e do exílio, uma veste de festa, ou seja, a glória da Ressurreição “em vez do desespero” (Is 61, 3).

Rupert de Deutz (c. 1075-1130),
monge beneditino
Sobre a Santíssima Trindade, 42

9 de janeiro de 2008

Jesus junto à Igreja

Os apóstolos atravessam o lago. Jesus está sozinho em terra, enquanto eles se esgotam a remar sem poderem avançar, porque o vento é contrário. Jesus ora e, na sua oração, vê-os esforçarem-se por avançar. Vem logo ao seu encontro. É claro que este texto está cheio de símbolos da Igreja: os apóstolos sobre o mar e contra o vento, e o Senhor ao pé do Pai. Mas o que é determinante é que, na sua oração, enquanto está “ao pé do Pai”, não está ausente; bem pelo contrário, ao rezar Ele vê-os. Quando Jesus está junto do Pai, está presente na Igreja. O problema da vinda final de Cristo é aqui aprofundado e transformado de modo trinitário: Jesus vê a Igreja no Pai e, pelo poder do Pai e pela força do seu diálogo com Ele, está presente junto dela. É justamente este diálogo com o Pai enquanto “está no monte” que O torna presente, e inversamente. A Igreja é por assim dizer objecto de conversação entre o Pai e o Filho, portanto, ela própria ancorada na vida trinitária.

Cardeal Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI]
O Deus de Jesus Cristo

8 de janeiro de 2008

Não podeis viver sem amor

[Jesus dizia a Santa Catarina:] É toda a Essência divina o que recebeis neste sacramento, sob essa brancura do pão. Tal como o sol é indivisível, assim Deus se encontra todo inteiro e o homem todo inteiro na brancura da hóstia. Ainda que dividíssemos a hóstia em milhares de migalhas, se isso fosse possível, em cada uma delas eu estou ainda, Deus inteiro, homem inteiro, tal como te disse...

Suponhamos que haja várias pessoas a virem buscar luz com círios. Uma traz um círio de cem gramas, outra de duzentos e uma terceira de trezentos gramas; uma outra traz um círio de meio quilo e outra de mais ainda. Todas se aproximam da luz e cada uma acende o seu círio. Em cada círio aceso, seja qual for o seu volume, vê-se agora a luz toda inteira, com a sua cor, o seu calor e o seu brilho... Assim acontece aos que se aproximam deste sacramento. Cada um traz o seu círio, quer dizer, o santo desejo com que recebe e toma o sacramento. O círio está apagado e acende-se quando se recebe este sacramento. Digo que está apagado porque por vós mesmos não sois nada. É verdade que vos dei a matéria com que podeis receber e conservar em vós esta luz. Essa matéria é o amor, porque vos criei por amor; é por isso que não podeis viver sem amor.

Santa Catarina de Sena (1347-1380),
terceira dominicana, doutora da Igreja, co-padroeira da Europa
O Diálogo

5 de janeiro de 2008

Deus nos procurou

Nós fomos procurados, e só podemos falar depois de termos sido encontrados; longe de nós, pois, qualquer sentimento de orgulho. Estávamos perdidos para sempre, se Deus não tivesse ido à nossa procura para nos encontrar.

Santo Agostinho (354-430),
bispo de Hipona (norte de África) e doutor da Igreja
Sermões sobre São João, nº 7

O Mistério sempre novo

O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e condescendência para com os homens, quer nascer sempre espiritualmente naqueles que o desejam. Quer tornar-se criança, que vai se formando neles com o crescimento das virtudes; e manifesta-se na medida em que pode compreendê-lo quem o recebe. Se não se comunica com o esplendor de sua grandeza, não é porque não deseje, mas porque conhece as limitações das faculdades receptivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-se sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente, por causa da imensidade de seu mistério.

Nasce o Cristo, Deus que se faz homem, assumindo um corpo dotado de uma alma racional, ele por quem tudo que existe saiu do nada. No Oriente brilha uma estrela visível em pleno dia e conduz os magos ao lugar onde está deitado o Verbo feito homem, para demonstrar misticamente que o Verbo, contido na lei e nos profetas, supera o conhecimento sensível e conduz as nações à plena luz do conhecimento.

Com efeito, a palavra da lei e dos profetas, entendida à luz da fé, é semelhante a uma estrela que conduz ao conhecimento do Verbo encarnado todos os que foram chamados pelo poder da graça, segundo o desígnio de Deus.

Deus se fez homem perfeito, sem que nada lhe faltasse do que é próprio da natureza humana, à exceção do pecado (o qual, aliás, não era inerente à natureza humana).

O grande mistério da encarnação de Deus permanecerá sempre um mistério! Como pode o Verbo que está em pessoa e essencialmente na carne existir ao mesmo tempo em pessoa e essencialmente junto do Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum das duas naturezas, nem da divina, na qual é Deus nem da humana, na qual se fez homem?

Só a fé pode alcançar estes mistérios, ela que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda inteligência e compreensão.

Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje e por toda a eternidade.

São Máximo, confessor, abade

Fonte: Oficio das leituras, Liturgia das Horas

4 de dezembro de 2007

Quiseram ver o que vedes

O desejo ardente dos patriarcas pela presença corporal de Jesus Cristo constitui para mim assunto de frequentes meditações. Não consigo pensar nisso sem que lágrimas de vergonha me assomem aos olhos. Porque avalio então o tédio e a sonolência desta época miserável em que vivemos. Recebemos esta graça, o corpo de Cristo é-nos mostrado no altar, mas ninguém de entre nós experimenta tão intensa alegria como o desejo que a simples promessa da Encarnação inspirava aos nossos antepassados…

O Natal está próximo e muitas pessoas apressam-se a celebrá-lo: possam elas rejubilar verdadeiramente com a Natividade, e não com vaidades!

São Bernardo (1091-1153),
monge cisterciense e doutor da Igreja
Sermão 2 sobre o Cântico dos Cânticos

Os três adventos de Cristo

Há três adventos do Senhor, o primeiro é na carne, o segundo na alma, o terceiro, pelo juízo. O primeiro advento deu-se a meio da noite, como está dito nas palavras do evangelho: «A meio da noite ouviu-se um grito: eis o Esposo!» (Mt 25,6). E esse primeiro advento já passou, pois Cristo foi visto na terra e conversou com os homens (Br 3,38).

Estamos agora no tempo do segundo advento, contanto porém que sejamos dignos de Ele vir até nós, pois Ele disse que, se O amamos, virá até nós e em nós estabelecerá a sua morada (Jo 14,23). Este segundo advento de Cristo é portanto para nós uma coisa envolta em alguma incerteza, pois quem, a não ser o Espírito Santo, conhece os que são de Deus? (1 Co 2,11)? Aqueles a quem o desejo das coisas celestes transporta para lá de si mesmos sabem quando Ele virá: porém «não sabem de onde vem nem para onde vai» (Jo 3,8).

Quanto ao seu terceiro advento, é certo que há-de acontecer, mas é incerto quando, pois nada é mais certo do que a morte, e nada é mais incerto do que o dia da morte. «No momento em que falarmos de paz e de segurança, então surgirá a morte, repentina, como as dores do parto das mulheres, e ninguém escapará» (1 Ts 5,3). O primeiro advento foi portanto humilde e escondido, o segundo é misterioso e cheio de amor, o terceiro será magnífico e terrível. No primeiro advento, Cristo foi julgado pelos homens com injustiça; no segundo, fez-nos justiça pela graça, no último, tudo julgará com equidade – Cordeiro no primeiro advento, Leão no último, Amigo cheio de ternura no segundo.

Pedro de Blois (c. 1130-1211),
arcediago na Inglaterra
(in Ephata 1, pg. 10-11)

2 de dezembro de 2007

Vigiai e orai continuamente

Quem quer orar em paz não terá apenas em consideração o local, mas o tempo. O momento do repouso é o mais favorável e assim que o sono da noite estabelece um silêncio profundo, a oração faz-se mais livre e mais pura (Lam 2,19). Com que segurança a oração sobe na noite, quando só Deus é testemunha, com o anjo que a recebe para a ir apresentar ao altar celeste! Ela é agradável e luminosa, pintada de pudor. Ela é calma, tranquila, já que nenhum barulho, nenhum grito a vem interromper. Ela é pura e sincera, quando o pó das preocupações terrenas não a podem sujar. Não há espectador que possa expô-la à tentação pelos seus elogios ou adulação.

É por isso que o Esposo (do Cântico dos Cânticos) agiu com tanta prudência como pudor assim que ela escolheu a solidão noturna do seu quarto para rezar, quer dizer, para procurar o Verbo, porque tudo é um. Tu rezas mal se ao rezar procuras outra coisa que não o Verbo, a Palavra de Deus, ou e tu não pedes que o assunto da tua oração seja relativo ao Verbo. Porque tudo está nele: o remédio para as feridas, o socorro nas tuas necessidades, a melhoria dos teus defeitos, a fonte dos teus progressos, em resumo, tudo o que um homem pode e deve desejar. Não há nenhuma razão para pedir ao Verbo outra coisa que não seja ele próprio, pois que ele é todas as coisas. Se, como é necessário, nós pedimos certos bens concretos, e se, como devemos, nós os desejamos pelo Verbo, são menos essas coisas em si mesmas que nós pedimos, que aquele que é a causa da nossa súplica.

S. Bernardo (1091-1153),
monge de Cister e doutor da Igreja
Sermão 86 sobre o Cântico dos Cânticos

30 de novembro de 2007

Progresso

Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior, então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo.

Papa Bento XVI

26 de novembro de 2007

Misericórdia perfeita

A misericórdia merece ser louvada não só pela abundância de dádivas, mas sobretudo quando procede de um pensamento bom e misericordioso. Há pessoas que muito dão e muito distribuem mas não são tidas por misericordiosas aos olhos de Deus, e há pessoas que nada têm, nada possuem, mas têm piedade por todos no seu coração. Estas são consideradas seres verdadeiramente misericordiosos aos olhos de Deus, e de facto são-no. Portanto não digas: «Nada tenho para dar aos pobres»; não te angusties pensando que por esse motivo não podes ser misericordioso. Se tens qualquer coisa, dá o que tens; se nada tens, dá, ainda que seja um pão seco apenas, fá-lo com intenção verdadeiramente misericordiosa, e tal será considerado por Deus como misericórdia perfeita.

Nosso Senhor não louvou os que muito punham na caixa das esmolas; Ele louvou a viúva por aí ter posto as duas moedas que pôde poupar na sua vida de indigência, oferecendo-as em gratuidade, com um pensamento bom, para o tesouro de Cristo. O homem que no seu coração tem piedade pelos semelhantes, esse sim, é misericordioso aos olhos de Deus; mais vale uma boa intenção sem efeitos visíveis do que a abundância de obras magníficas mas realizadas sem boa intenção.

Youssef Bousnaya
(c. 869-979), monge sírio

14 de novembro de 2007

Mensagem aos pais sobre a catequese

Dez coisas que eu gostaria de dizer aos pais que não ajudam em nada a catequese

Confesso: eu deveria ser mais tolerante com os pais das crianças e jovens da catequese. Mas não estou conseguindo. Em muitas ocasiões, me sinto desrespeitado e desvalorizado como catequista em função deste descaso dos pais com a catequese. Isso me deixa "P" da vida. Fico estressado, chateado, acabo desanimando, me dá vontade de jogar tudo para o alto, fico mais agressivo e acabo descontando em pessoas que não tem nada haver com isso. Minha vida pessoal acaba sendo afetada.

Parece incrível, mas esta inegável omissão dos pais em relação aos seus filhos me atinge diretamente. Fico pensando: como pode um trabalho que faço de forma gratuita, voluntariamente, afetar tanto meus sentimentos, humor e paciência? Não deveria ser ao contrário, ou seja, por ser com esta finalidade, que eu ficasse alegre, feliz, paciente, otimista e agradecido?

Tem sido assim. Eu mais me estresso do que me alegro. Mais me indigno que me regozijo. Encontro mais motivos para dizer "tchau, não volto mais" do que para dizer "nos encontraremos em breve".

Esta inércia dos pais me irrita. Esta desconfiança e desinteresse pelas coisas de Deus me transtornam. Eu não consigo disfarçar a minha dor em relação isso. Preciso desabafar. Tem algumas coisas que eu gostaria de dizer aos pais que inscrevem os filhos na catequese. Mas não tive coragem de dizer tudo, de uma só vez. Mas se um dia eu disser, será num tom forte, olhando nos olhos de cada um, e estaria pronto para as reações contrárias.

Eu lhes diria:

*1º *Vocês não são obrigados a inscrever seus filhos na catequese. Por isso, se nos procuraram de livre e espontânea vontade, aceitem nossas regras e não fiquem reclamando de tudo;

*2º *Os catequistas de vossos filhos são pessoas normais, que tem família, trabalho, atividades pessoais, faculdade, problemas, alegrias, frustrações, desânimo, ou seja, sentimentos comuns a qualquer pessoa. Por isso, trate-o com mais carinho e com mais respeito. Pelo menos, tentem saber qual é o nome dele. Isso já será de grande valia.

*3º *Quando organizamos palestras, encontros e reuniões, é porque queremos construir uma ponte de relacionamento com vocês. Se não querem participar, não participem. Mas se quiserem, venham com vontade e não fiquem bufando na nossa frente ou olhando o relógio para ver que hora o encontro termina;

*4º *A catequese não é depósito de crianças e jovens que não tem o que fazer. A catequese é um lugar de aprofundamento dos assuntos de Deus. Eles precisam aprofundar aquilo que já deveriam saber através dos ensinamentos de vocês, pais. Se vocês nunca falam de Deus com seus filhos, não coloquem nas costas dos catequistas esta obrigação;

*5º* Não reclamem do tempo de duração da catequese. Isso nos entristece. A catequese é um processo contínuo. Se for um, dois, três ou quatro anos, isso não importa. Mas se você acha que é demais, não inscreva o seu filho. Vocês são livre para isso.

*6º* Não ensinem vossos filhos a mentir. Estamos carecas de saber que muitos pais, burlam as regras definidas na catequese, não participam de eventos e atividades, pois optam pela chácara, o jogo de futebol, o passeio ou até mesmo a preguiça. Sejam verdadeiros, não mintam e não ajudem os seus filhos a inventarem desculpas para tentar enganar os catequistas.

*7º *Se vocês são espíritas, sejam bons espíritas, mas não queiram ser católicos também. Uma coisa é bem diferente da outra. Não têm como andar junto. Uma religião prega a ressurreição. A outra, prega o oposto, a reencarnação. Ou vocês são católicos ou são espíritas. As duas, não dá para ser.

*8º* Antes de culpar a Igreja disso ou daquilo, fiquem sabendo que Igreja são vocês também. Então, ao invés de ficarem apenas arranjando defeitos, porque vocês não exercitam mais o vosso catolicismo, participando de algum serviço ou pastoral e tentando observar com mais atenção o imenso esforço que muitos leigos fazem?

*9º *O dia da primeira comunhão ou crisma não é formatura. Se vocês estão preocupados com roupa, janta e como será a festa , então vossos propósitos são completamente diferentes dos nossos.

*10º* E último, tratem a catequese da mesma forma que vocês tratam a escola, curso de inglês, escolinha de futebol, informática e as festivas no clube que seus filhos tanto gostam. Não precisam abrir mão de tudo isso por causa da catequese. É só dar a mesma importância. Para nós catequistas, já será bem melhor e nos fará, mais felizes.

Juro para vocês, gostaria de dizer isso, de uma tacada só para muitos pais. Tenho dito, nos últimos anos, não diretamente, mas indiretamente e em doses homeopáticas.

Mas todo ano, volto a sentir as mesmas coisas. São sentimentos que me acompanham e que me perturbam, pois eu gosto demais da catequese.

Se nada disso me afetasse, por certo, alguma coisa estaria errada na minha relação com as coisas de Deus. Não há quem não reclame, parece unânime. Se catequese não anda melhor por causa do desinteresse dos pais, precisamos fazer alguma coisa urgentemente.

Quanto a mim, não dêem bola, meus amigos catequistas, eu sou assim mesmo. Estou apenas pensando em voz alta. E nada melhor do que desabafar com vocês através destes textos.

Alberto Meneguzzi

Medianeira da eternidade

Maria, e somente ela, é o limite entre a natureza criada e a incriada.

Todos os que conhecem Deus devem saber que a Virgem mãe serviu de abrigo Àquele que nada pode conter, e todos os que sabem louvar a Deus, a louvarão após Deus.

Ele é a causa de tudo o que a precedeu, ela preside a tudo o que vem depois dela, ela é a medianeira da eternidade.

São Gregório Palamas
Monge ortodoxo 1296-1359

Julgamento

Tema o julgamento de Deus, não o dos homens.

Padre Pio de Pietrelcina

13 de novembro de 2007

Paz profunda e cheia de amor

Existem muitos graus de humildade. Há quem seja obediente e se censure a si mesmo em todas as coisas; isso é humildade. Há também quem se arrependa dos seus pecados e se considere um miserável diante de Deus; e também isso é humildade. Outra, porém, é a humildade de quem conheceu o Senhor pelo Espírito Santo: o seu conhecimento e os seus gostos são diferentes.

Quando a alma compreende, no Espírito Santo, como o Senhor é manso e humilde, humilha-se a si mesma até ao fim. Esta humildade é bem peculiar, e impossível de descrever. Se os homens quisessem saber, por meio do Espírito Santo, que Senhor é o nosso, mudariam por completo: os ricos desprezariam as suas riquezas; os sábios, a sua ciência; os governantes, o poder e o prestígio de que dispõem. Todos viveriam numa paz profunda e cheia de amor e reinaria na terra uma grande alegria.

São Siluane (1866-1938),
monge ortodoxo

12 de novembro de 2007

Deus nos manifestou o Seu amor e a Sua verdade

“Todos os caminhos do Senhor são graça e verdade para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos” (Sl 24, 10). O que este salmo diz acerca do amor e da verdade é da maior importância. […] Fala do amor, porque Deus não olha aos nossos méritos, mas à sua bondade, a fim de nos perdoar os nossos pecados e de nos prometer a vida eterna. E fala igualmente da verdade, porque Deus nunca falta às suas promessas. Reconheçamos este modelo divino e imitemos a Deus, que nos manifestou o Seu amor e a Sua verdade. […] Tal como Ele, realizemos neste mundo obras cheias de amor e de verdade. Sejamos bons para com os fracos, os pobres, e mesmo para com os nossos inimigos.

Vivamos na verdade evitando fazer o mal. Não multipliquemos os pecados, porque aquele que presume da bondade de Deus está a permitir que nele se introduza a vontade de tornar Deus injusto. Imagina esse que, mesmo que se obstine nos seus pecados e se recuse a arrepender-se deles, Deus lhe há-de conceder um lugar entre os seus fiéis servidores. Mas seria justo Deus colocar-te no mesmo lugar que aqueles que renunciaram aos seus pecados, quando tu perseveras nos teus? […] Por que pretendes, então, dobrá-lo à tua vontade? Sê tu a submeter-te à Sua.

A este propósito diz justamente o salmista: “Quem procurará a misericórdia e a verdade do Senhor junto Dele?” (Sl 60, 8). […] E por que dirá “junto Dele”? Porque são muitos os que procuram instruir-se acerca do amor do Senhor e da Sua verdade nos Livros sagrados. Porém, uma vez aí chegados, vivem para si próprios e não para Ele. Procuram os seus próprios interesses, e não os interesses de Jesus Cristo. Apregoam o amor e a verdade, mas não os praticam. Já aquele que ama a Deus e a Cristo, quando prega a verdade e o amor divinos, é para Deus que os procura, e não no seu próprio interesse. Não prega para daí retirar vantagens materiais, mas para o bem dos membros de Cristo, ou seja, dos seus fiéis. Distribui-lhes aquilo que aprendeu em espírito de verdade, de tal maneira que “os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5, 15). “Quem procurará a misericórdia e a verdade do Senhor?”

Santo Agostinho (354-430),
bispo de Hipona (norte de África) e doutor da Igreja
Discursos sobre os Salmos, Sl 60, 9

Os caminhos da vida

Encaminhavam-se três viajantes para um país longínquo, em busca de honras e fortunas. Por algum tempo andaram juntos, consultando o mesmo roteiro, comendo do mesmo pão e dormindo sob a mesma tenda.

Apesar de ser o rumo determinado com relativa facilidade pelas constelações, começaram eles a preocupar-se com os acidentes do terreno, e bem cedo suas opiniões se dividiram. Por esse tempo, atravessavam uma vasta zona deserta, e sentiram-se aflitos ao ver quase terminada a provisão de água. Temendo as torturas da sede, depois de acalorada discussão resolveram separar-se, tomando cada um os caminhos que lhes pareciam mais razoáveis.

O primeiro, desprezando o mapa que levavam, saiu sozinho pelo areal ardente, ansioso por achar uma fonte e depois o país remoto. Andou dias e dias, até se esgotarem todos os recursos para a longa viagem. Em meio de sua angústia, entreviu ao longe um córrego de águas cristalinas. Correu para ele, fazendo os derradeiros esforços para chegar à margem. Mas tombou moribundo e sem esperanças, quando verificou que a corrente era apenas uma enganadora miragem.

O segundo viajante também desprezou o roteiro e seguiu o rumo aconselhado por outros, antes da partida. Mas esses eram homens que jamais quiseram arriscar-se a empreender a perigosa jornada. Após alguns dias de inauditas canseiras, viu, à distância, o que lhe pareceu um lago. Estugou o passo até chegar à margem, e exultou de alegria ao ver que tinha água fresca à disposição. Mas em seguida sofreu decepção amarga, ao provar da água e verificar que era salgada. Tinha diante de si apenas um braço de mar, avançando por solitárias regiões. Ali mesmo expirou exânime o louco aventureiro.

Mas o terceiro caminhante agiu de outro modo. Assentado na areia, poupando as forças, examinou detidamente o roteiro e orientou-se pelas estrelas. Foi-lhe fácil, afinal, acertar com uma quase apagada vereda. Alcançou breve um delicioso oásis, onde descansou, comeu frutos e bebeu água fresca e límpida. Uma caravana que passava levou-o seguramente à terra desejada, e aí encontrou muito mais do que havia sonhado em honras e riqueza.

Um velho contou esta história a um grupo de jovens, que o escutava atentamente, e acrescentou: Meus filhos, o roteiro que nos ensina o caminho para o país longínquo é a Palavra de Deus Nosso Senhor.

O primeiro viajante é o homem que, desprezando os ensinamentos sagrados, deixando de olhar para o alto e preocupando-se apenas com os interesses mundanos, se dirige tão somente com a fraca luz de sua inteligência. No final da vida, verifica que perseguiu miragens enganadoras, e já não tem mais forças nem tempo para retroceder.

O segundo viajante é o que espera achar o rumo através da filosofia e da opinião dos homens. Segue conselhos, faz esforços bem intencionados, porém tudo em vão, porque seus conselheiros são homens que apenas dizem "fazei assim", mas eles mesmos nunca empreenderam a heróica jornada.

Mas o terceiro viajante é o que lê atentamente a Sagrada Escritura, medita nos seus profundos ensinamentos, olha para o alto e obedece com fidelidade aos divinos preceitos. A despeito de toda a aridez da vida, não tarda a encontrar-se no consolador oásis da fé, e são as virtudes evangélicas que o levam, pela graça divina, à presença de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quereis um conselho? Não desprezeis filhos meus esse roteiro, enquanto fazeis vossa jornada pelo caminho da vida.

Athalicio Pitham,
"Lendas e Alegorias" - Edições Brasília, Porto Alegre, 1945

Fátima é escola de fé

Apraz-me pensar em Fátima como escola de fé com a Virgem Maria por Mestra; lá ergueu Ela a sua cátedra para ensinar aos pequenos Videntes e depois às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar. Na atitude humilde de alunos que necessitam de aprender a lição, confiem-se diariamente, a Mestra tão insigne e Mãe do Cristo total, todos e cada um de vós e os sacerdotes vossos directos colaboradores na condução do rebanho, os consagrados e consagradas que antecipam o Céu na terra e os fiéis leigos que moldam a terra à imagem do Céu.

Bento XVI
aos bispos de Portugal

8 de novembro de 2007

Nada preferir a Cristo

Nosso Senhor Jesus Cristo disse a todos, por várias vezes e dando diversas provas: "Se alguém quiser vir após mim, que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" e também "Aquele de entre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo". Parece, pois, exigir a renúncia mais completa... "Onde estiver o teu tesouro, diz noutra altura, aí estará o teu coração" (Mt 6,21). Portanto, se reservarmos para nós bens terrestres ou qualquer provisão fugaz, o nosso espírito permance ali atolado como que na lama. É então inevitável que a nossa alma fique incapaz de contemplar Deus e se torne insensível aos desejos dos esplendores do céu e dos bens que nos foram prometidos. Só poderemos obter esses bens se os pedirmos sem cessar, com um desejo ardente que, de resto, nos tornará leve o esforço para os atingir.

Renunciar a nós mesmos é, pois, soltar os laços que nos prendem a esta vida terrestre e passageira, libertar-nos das contingências humanas, a fim de sermos mais capaz de caminhar na via que conduz a Deus. É libertar-nos dos entraves a fim de possuir e usar bens que são "muito mais preciosos do que o ouro e a prata" (Sl 18,11). E, para dizer tudo, renunciar a nós mesmos é transportar o coração humano para a vida no céu, de tal forma que possamos dizer: "A nossa pátria está nos céus" (Fl 3,20). E, sobretudo, é começar a tornar-nos semelhantes a Cristo, que se fez pobre por nós, ele que era rico (2 Co 8,9). Devemos assemelhar-nos a ele se quisermos viver conforme o Evangelho.

S. Basílio (c. 330-379),
monge bispo de Cesareia na Capadócia, doutor da Igreja

Grandes Regras Monásticas; questão 8

Acabando com todas as divisões

Nossa fé em Cristo exige que nos comprometamos em uma união efetiva, sacramental, entre os membros da Igreja, acabando com todas as divisões.

Papa Bento XVI
Sobre a superação da divisão entre os cristãos do Oriente (em sua maioria ortodoxos), e do ocidente.